O LIVRO DE GÁLATAS: CONTRA A TORAH?

A interpretação clássica do Cristianismo é que o livro de Gálatas indica que ninguém é capaz de cumprir os mandamentos da Torah com perfeição e que se tentarmos, seremos amaldiçoados.
O grande abuso que existe do texto, que é completamente extirpado de seu contexto original, fica evidente quando pensamos a respeito dos itens abaixo:
1 – AS ESCRITURAS SE CONTRADIZEM?
Só existe uma forma coerente de interpretar as escrituras: a de harmonizar os textos, e não colocá-los em antagonismo. Portanto, se uma determinada passagem parece contradizer uma revelação anterior, temos que rever a leitura que estamos fazendo de tal passagem.
Portanto, a única interpretação aceitável do Brit Hadasha (o `novo' testamento) é aquela na qual o mesmo não entra em contradição com o Tanach (primeiro testamento).
Desta forma, cabe a pergunta: será que Paulo quis mesmo dizer que a Torah não deveria mais ser cumprida, sendo que o Eterno disse que a Torah permaneceria para sempre? Vamos analisar esta premissa.

2 – POSSO ME CASAR COM MINHA IRMÃ?
Qual seria a resposta se perguntássemos a um pastor cristão se podemos casar com um irmão de sangue? Ou se somos mesmo obrigados a dar o dízimo? A verdade é que nenhum respaldo é encontrado no Brit Hadasha (`novo' testamento) para dizer que não podemos nos casar com irmãos
de sangue ou que ainda devemos dar o dízimo, se a Torah foi abolida. Devo dizer mais ainda, se levamos em conta a interpretação tradicional do Cristianismo, sou maldito se tentar fazer tais coisas.
3 - PAULO AMALDIÇOOU TIMÓTEO?
Ora, se de fato o livro de Gálatas nos indica que a circuncisão é maldição, então por que Paulo amaldiçoou Timóteo? (Atos 16:3) Esta pergunta já começa a nos dar indícios de que, ou Paulo não
era uma pessoa confiável, ou o ato de circuncidar ou não, por si só, não era o que Paulo estava tratando em Gálatas
4 – PAULO ERA HIPÓCRITA?
Se observamos a `carreira' de Paulo, percebemos uma grande contradição (isto é, se ele realmente foi
do jeito que o Cristianismo descreve):
Ano 48-49 DC – Paulo escreve o livro de Gálatas
Ano 50 DC – Ocorre o Concílio de Jerusalém (Atos 15) e Paulo se declara cumpridor da Torah.
Se lemos Atos 15:1-2, temos uma `dica' com relação ao real objetivo da carta de Gálatas, e o que estava acontecendo na época:
"Alguns homens desceram da Judéia para Antioquia e passaram a ensinar aos irmãos: `Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos'. Isto levou
Paulo e Barnabé a uma grande contenda e discussão com eles. Assim, Paulo e Barnabé foram designados, juntamente com outros, para irem a Jerusalém tratar dessa questão com os apóstolos e os presbíteros."
Ora, pelo que podemos observar aqui nesta passagem, a grande questão não era cumprir ou não a
Torah, mas sim exigi-la para fins de salvação.
5 – O BATISMO SALVA?
Isto é semelhante à discussão sobre se o batismo salva ou não. Infelizmente, existem ainda grupos que insistem na heresia de que o batismo é necessário para a salvação. Não pretendo aqui me estender nesta discussão, até porque a maioria dos seguidores de Yeshua não crê desta forma.
Contudo, se eu escrevo uma carta falando de que somos salvos pela fé, e não pelo batismo, isto quer dizer que estou pregando contra o batismo? Claro que não! A questão é a seguinte: em que estou confiando para minha salvação? Confio no meu batismo? Ou confio no sacrifício de Yeshua? Isto faz toda a diferença! Se eu pratico o batismo da forma correta, em mim não pode haver condenação, pois
estou seguindo uma ordenança de Yeshua.
Ora, com a observância da Torah a mesma coisa ocorre. Cumprimos os mandamentos de D-us por amor ao Seu Filho. (João 14:21) O segredo para a observância correta da Torah está, novamente, no livro de Atos: "Por meio dele, todo aquele que crê é justificado de todas as coisas das quais não podiam ser justificados pela Torah de Moisés." (Atos 13:39)
Ou seja, a Torah não é eficaz para nos justificar, pois não somos capazes de cumpri-la plenamente.
Porém, ao sermos justificados, nós confirmamos que agora temos um novo coração, capaz de amar a D-us e por amor a Ele querer andar de acordo com os ensinamentos da Torah, que foram dados por Ele: "Anulamos então a Torah pela fé? De modo nenhum! Pelo contrário, confirmamos a Torah." (Rom.3:31)

6 – FILHOS DE ABRAÃO?
Em vários momentos da história, D-us fez alianças com o povo, ou com indivíduos. Existe uma grande diferença entre a aliança de Abraão e a aliança de Moisés.
Até os tempos de Yeshua, havia grande discussão entre os judeus sobre como os gentios poderiam se tornar co-herdeiros de Abraão. Ficou estabelecido pelo Sinédrio que os gentios se tornariam co-herdeiros se passassem por um ritual de conversão (ou seja, falando resumidamente, pela circuncisão). É em Abraão, não em Moisés, que serão benditas todas as nações. E como entramos na aliança de Abraão? Pela fé!
A aliança de Moisés é uma aliança para uma vida de santidade. Porém, ela não tem o poder de nos libertar de nossa natureza pecaminosa. Um dos motivos pelos quais ela foi dada foi exatamente para nos mostrar que sem termos parte na aliança de Abraão, é em vão fazer parte da aliança de Moisés.
Uma pequena ilustração ajudará a entender: imagine que estamos doentes, de cama. O pecado é a nossa doença. Por estarmos doentes, não conseguimos sair da cama (ou seja, somos escravos do pecado). Agora imagine que a você, estando doente de cama, alguém tente te ensinar a plantar bananeira. Estas `instruções' são a Torah. Você vai tentar, e vai perceber que está de cama. Se você não tomar o remédio (Yeshua) não conseguirá sair da cama, muito menos ainda plantar bananeira. Ou seja, de nada adianta tentarmos cumprir a Torah sem termos antes sido salvos em Yeshua. Será, na melhor das hipóteses, um exercício de futilidade. É contra isto que Paulo fala. O alerta em Gálatas é de que temos que confiar no remédio para sairmos da cama, ou seja, temos que confiar em Yeshua para sermos salvos.
Agora, uma aliança não anula a outra. Se fazemos parte da aliança de Abraão, podemos também tomar parte na aliança de Moisés. Não mais como filhos de Hagar (escravos), mas como filhos de Sara, libertos pelo sangue de Yeshua e com sede de obediência a D-us, pois agora somos escravos da justiça de D-us.

6 – LIVRES DE QUE?
Mas então por que Gálatas parece nos dizer que estamos livres da Torah? A resposta é, estamos livres sim, mas não dos preceitos da Torah. Afinal, ninguém concordaria em dizer que estamos livres para pecar (Romanos 3 lida bem com esta questão).
Na realidade, estamos livres da CONDENAÇÃO que havia por não cumprir a Torah! Afinal, o não-cumprimento da Torah levava à morte. Porém, Yeshua tomou sobre si a morte, de modo que não mais cumprimos a Torah por medo da separação de D-us, mas sim por amor a Ele. Porque sabemos que Ele, em sua infinita sabedoria, nos deu instruções que contêm o que é melhor para nós.
Basta ver que a cada dia a ciência comprova cada vez mais que há sabedoria por traz do estilo de vida defendido na Torah (i.e. o descanso semanal, uma alimentação saudável, etc.) Estou livre? Estou sim, e como cidadão livre, livre da ameaça de morrer e ficar longe de D-us, eu agora posso escolher o meu caminho. E eu escolho àquele que D-us tem por ideal e escreveu com o seu próprio dedo na Torah!

7 – PAULO? QUE PAULO?
Cabe, então, a você caro leitor, tomar a decisão. Quem foi Paulo? Foi um judeu que se converteu a uma nova religião, contradisse as revelações anteriores dadas por D-us, disse que estamos livres de algo que nem o Filho de D-us ousou abolir, e usou de `artificios' para tapear os judeus? É assim que
Paulo é visto, seja intencionalmente ou não.
Ou será que Paulo foi um rabino, formado segundo a escola de Gamaliel (neto de Hillel), que nunca negou o chamado de Israel, nem a Torah, mas foi apenas contra o legalismo, ou seja, contra a deturpação da Torah? Este Paulo não contradiz nenhuma escritura anterior.
A escolha é de cada um...



Sha'ul Ben Tsion

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